Os amantes



– Alô?! – atende ao telefone uma voz feminina.

– Oi, sou eu, você pode falar? – sussurra a outra voz bem baixinho, como quem sabe que está fazendo coisa errada.

– É você? – assusta-se a mulher, que agora também cochicha – Tá louco? Ligar pra cá… Meu marido está lá na sala!

– Eu sei que eu não devia ligar pra aí…

– Então por que ligou? Pirou? – quase engolindo o telefone – Se o meu marido te pega… te capa!

– Você disse “capa”? Nem brinca! – e bate três vezes com o bocal do telefone na madeira, enquanto, com a outra mão, num gesto rápido e involuntário, verifica in loco se está tudo bem com seu “amigo”… – Você pode falar?

– Claro que não!

– Uhm, que pena – ainda sussurrando – É que eu estou com uma baita saudade de te ver…

– É? – parecendo animada com a ideia – Fala mais… – sugeriu, enquanto esticava o pescoço para ver se o marido ainda estava estarrado em frente à tv, cerveja na mão, assistindo ao jogo. – Fala mais… – pediu baixinho, num fiapo de voz.

– Pois é… – prosseguiu ele, sussurrando – eu imaginei sabe o quê? Nós dois, numa praia deserta… pensei em comprar um espumante… duas taças… um tubo de chantilly… Você sabia que hoje à noite a lua vai estar cheia?

– Jura? Uhmmm… Covardia dizer isso para uma romântica confessa. Chantilly, você disse? Aliás, queria te contar uma coisa, mas tô com vergonha. Você sabe como sou tímida!

– Você, tímida? – rindo da confissão ao lembrar de tudo que já fizeram juntos – até parece; conta logo, baby!

– Comprei uma lingerie vermelha minúuuuuscula! Pronto, disse!

– Jura?

– Anrã! Tem um coraçãozinho na frente…

– Ai ai…

– … e lacinhos do lado

– Ai ai…

– Também tem um zíper… e mais não conto… nem sob tortura!

– Ahhhh é? Nem com mordidinhas na orelha?

– Uhmmm… quer me provocar, é?

– Eu? Não, quero é outra coisa…

– Ai ai.

– Só não quero me machucar nos seus espinhos…

– Como? Não entendi!

– Foi uma piadinha… seu nome… Rosa… Então você é a minha flor… flor tem espinhos! Captou? Que parte não entendeu?

…silêncio do outro lado da linha.

– Meu nome não é Rosa… É Marlene! E se não sabe quem eu sou, também não é quem eu pensei que fosse! Quem é você?

– Como quem sou eu? Eu sou eu, o Tigrão!

– Tigrão? Você disse Tigrão? Pois o senhor ligou para a casa errada, seu “Tigrão”!

– Foi engano?

– Anrã.

– Você não é a Rosa?

– Ãhn Ãhn! E pelo visto você não é o Valtoir!!! Ai meu Deus, falei o nome dele!

Silêncio…

– Bom… – pensando – então... – pausa – quer dizer... você não é a Rosa…


– Ãnr ãnr – ela pigarreou limpando a voz e se recompondo do constrangimento


– Tudo bem, quer dizer, foi mal, tchau então… Passar bem, minha senhora!

– Passar bem, meu senhor!

* * *

– Alô? – atende a mesma voz feminina, quinze minutos depois da ligação anterior.

– Oi, sou eu de novo… – sussurrando novamente – Apertei na rediscagem. É Marlene, né?

– Pois não? No que posso ajudar o senhor? – ainda constrangida – Eu já expliquei que não sou a …

– Não, olha só, Marlene, sabe o que é? Eu estava pensando nessa lua cheia… – breve silêncio – na garrafa de espumante… No chantilly… na lingerie… que cor era mesmo? Você disse vermelha? Talvez eu e a senhora… Quer dizer… Eu e vc… A gente…

– Olha… – breve silêncio – Eu sou uma mulher séria, viu seu Tigrão?! Tigrão é o seu nome, né?

– Unrum!

– É… Ãhn… – esticando o pescoço para ver se o marido continuava inerte na poltrona – Olha só – agora sussurrando – Fala mais, Tigrão! Fala mais…

* * * * *

#traição #humor

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