Liberdade


As curvas da estrada sinuosa de chão batido iam-se apresentando desafiadoramente ora à direita, ora à esquerda. Algumas se revelavam longas e suaves, outras o surpreendiam sendo mais fechadas e radicais, exigindo assim toda a sua atenção e habilidade. O Afonso nem piscava. “As motos não perdoam erros”, murmurou por entre os dentes cerrados. Ele sabia que qualquer deslize, por menor que fosse, ainda mais na velocidade em que se encontrava, seria certamente “the end”. De fato era muito arriscado, mas ele gostava dessa sensação de risco extremo. A proximidade com o perigo fazia-o sentir-se mais vivo que de costume!

Em certos trechos os minutos vividos pareciam horas, em outros ocorria justamente o contrário. Era como se a dimensão tempo tivesse agora outros referenciais. Portanto, pode-se dizer que foi “algum” tempo depois, e não saberia precisar quanto, que avistou uma placa parcialmente enferrujada indicando o acesso que o levaria de volta à rodovia principal. “Veio em boa hora”, pensou aliviado, voltando o bico da moto para a direção recomendada. Não que estivesse entediado, ao contrário, adorava sentir a adrenalina agindo no seu corpo. Contudo, precisava relaxar os músculos e, quem sabe, até curtir a paisagem, por que não? O descanso, porém, não durou muito tempo…

Outra estrada, outras emoções. Agora ia cortando um asfalto impecável… Um irrecusável chamado à velocidade. Dito e feito, acelerou com tamanha intensidade que estava agora muito além do que a prudência recomendaria se tivesse tido a chance de opinar, fazendo rapidamente a faixa branca e pontilhada que divide as pistas se tornar uma linha contínua. Um e outro veículo que surgia era ultrapassado sem dificuldade, ficando para trás como se a partir de então não mais existisse. O reflexo do carro, caminhão ou carroça diminuía em frações de segundos no seu espelho retrovisor, dissipando-se em meio à paisagem deixada para trás.

Sentia-se jovem! O Afonso experimentava novamente uma sensação de liberdade que estava adormecida há anos! Respirou fundo e mirou o asfalto por entre o par de longos guidões curvos. Era como se a estrada nascesse entre o velocímetro e o conta-giros da sua moto e se estendesse até o fim do mundo, na linha do horizonte. Assim, sentia-se dono do caminho que traçava, embora, na verdade, não tivesse a menor ideia de onde aquela estrada o levaria, nem as adversidades que o aguardavam milhas à frente. Estava justamente pensando nisso quando um grito ensurdecedor o tirou repentinamente desse estado de graça…

– Oh mãeeee, – o pai não está me deixando jogar! – protesta o Júnior para a Clotilde que estava na cozinha preparando o jantar.

– Afonso… – diz a mãe bufando, vindo em defesa do filho – deixa de ser criança! Libera o videogame para o menino, por favor! Ele acabou de ganhar o brinquedo…

– Querida, eu só estava ensinando uns macetes para ele…

– A tarde inteira?

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#conto #vidadecasado #humor

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