Ele morreu...


O Afonso tomou um susto quando se deu conta de que havia morrido. O dia nem tinha amanhecido e a Clotilde ainda dormia ao seu lado. Morto? A constatação veio como uma bomba. Na sua cabeça, apesar dos quarenta e poucos anos, ainda era jovem e tinha muita vida pela frente. Sua vontade era de sair gritando pela rua, mas não, ficou estático, deitado, ainda de pijama, olhando o teto do quarto e processando a novidade.


Enquanto observava uma formiga, totalmente indiferente ao seu sofrimento, cruzar o teto de cabeça para baixo, tentou lembrar, apalermado, quando foi que sua vida também ficou assim. Onde foi que se perdeu dos sonhos que nutria vinte, trinta anos atrás? Conhecer o mundo, ter um emprego emocionante, ficar famoso…

Estava morto! E para seu desgosto, logo ele, que adora ver a turma toda reunida à sua volta, morrera tão discretamente que ninguém se deu conta do fato. Assim, nem mesmo os comes-e-bebes em sua homenagem a que todo defunto tem direito, recebeu. Sem velório, não ganhou nada! Nem a coroa de flores rateada entre os colegas de trabalho, nem o brinde de despedida dos amigos de botequim, nem o choro descontrolado da sua mulher, nem as lágrimas arrependidas de uma ex-namorada… Nada!

Ainda olhando para o teto, tentava identificar o exato momento de sua morte, até porque sempre teve uma saúde privilegiada. Curiosamente, morreu sem uma prévia pontada no peito, sem uma dormência no lado esquerdo do corpo, sem uma espinha atravessada na garganta, sem uma dor lancinante… Nem mesmo uma tonturinha ou uma vertigem que fosse! Nada! Portanto, não houve um último suspiro, nem mesmo uma última e derradeira frase. Nem “Fulana eu te amo!” ou “Digam para o Sicrano que eu me arrependo do que fiz!”. Não, nenhuma mensagem final, nenhum segredo revelado! Nem mesmo um patético “cuidado com o caminhãooooooo!!” ou então “Eu pulo primeiro. Não tenho medo!” ou ainda “Podem vir! Eu encaro… os três!”. Nada disso! Morrera em silêncio e aos poucos. A cada dia… leeeentamennnnte! Nem o tal clarão no final de um túnel se lembra de ter visto!

Sem direito a bala de goma ou pipoca, assistia agora, inerte na cama, a sua vida sendo projetada no teto do quarto. De gênero indefinido, o filme começou como um clássico da Disney. As cenas com ele ainda pequeno, escondido atrás da escada, na expectativa de surpreender o Papai Noel ou no dia em que, com muito medo, finalmente concordou em tirar as rodinhas de apoio da bicicleta, quase o levaram às lágrimas. Até o gordinho que o atormentava diariamente na fila da cantina roubando seu lanche lhe provocou saudade. Como queria poder voltar no tempo e ter uma nova chance de dar uns cascudos naquele garoto! Depois, num colorido bem forte, um filme de “sessão da tarde” em que, como protagonista, se reconheceu envolto em barracas, motos e pranchas. A primeira namorada… o primeiro baseado… a primeira transa… o sonho de dar a volta ao mundo surfando em busca das melhores ondas, depois abandonado em prol do vestibular… – Estranho, o filme perdeu um pouco a cor! – Depois o primeiro emprego, as responsabilidades… O vocabulário mais duro, as decisões mais sem-graça, porém mais responsáveis… Tudo passando bem na sua frente, oscilando entre a aventura e o trash, o musical e o suspense. De Spielberg a Wood Allen, de Tom Cruise a Mister Bean. À medida que o filme avançava, as imagens iam ficando cada vez mais desbotadas… sem cor, até que, quando finalmente desistiu de escrever seus poemas, apagou por completo. Tudo bem, eles não eram mesmo grande coisa. Para ser justo, eram de fato poemas ruins… a métrica falha, as rimas pobres, mas eram seu último oxigênio da alma. Justificou para si mesmo que não tinha mais tempo… mentira! Não tinha mais inspiração!

* * *

O despertador tocou avisando toda a família que mais um dia de trabalho iniciava. Com a preguiça de sempre, obediente à sua rotina diária, levantou-se e se arrastou até o banheiro. Lá, no entanto, percebeu que não estava sozinho. Do outro lado do espelho, junto ao seu reflexo cansado, fitando-o, muitos outros Afonsos de diversas idades o observavam calados por detrás dos seus ombros, atentos a cada gesto seu… O menino ingênuo, olhando-o curioso; o garoto que tinha o mundo aos seus pés, aguardando uma só palavra; o idealista, decepcionado; o jovem apaixonado, ainda esperançoso de encontrar seu grande amor; e até, no canto, mais desconfiado, de braços cruzados, o Afonso de meia idade, conformado com seu destino. Todos ali, aguardando ansiosamente serem chamados.

– Saiam da frente – disse o Afonso mal-humorado, procurando sua escova de dentes – hoje eu tenho um longo dia de trabalho!

– Eu não disse? – ainda comentou o mais resignado deles, antes que todos dispersassem – Ele morreu!


* * * * *

#crônica #morte

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