A outra


– Quem é ela? – perguntou-lhe sem rodeios, a queima roupa.

– Ãh?

– Quem é ela? – insistiu na pergunta, tamborilando o pé esquerdo no chão, como sempre faz quando está nervosa – Anda, Reginaldo, não disfarça! Fala logo, quem é ela!

– Ela? – abaixando o jornal e olhando intrigado para a esposa.

– Não se faça de tolo, Reginaldo. Quem é ela? – agora a voz estava tremula, a um passo do choro.

– Ela quem, meu Deus?!

– Aquela morena, quem é… – não conseguiu terminar a frase. As lágrimas brotaram nos olhos. Um choro de decepção.

– Morena? Mas que morena? – já nervoso com a situação.

– A morena “de cintura fina, coxas longilíneas e pele branca como a neve…”

– Coxas finas… cintura longilínea…?

– Tá me zoando, Reginaldo?

– Ok… Ok! – pensando… pensando… – Aaaah, tá! – risos de alívio – Oh, querida, você ta falando da… Shirley?

– Essa mesma! – confirmou com os dentes cerrados de ódio.

– Maria Eugênia, você pirou? Ela é uma personagem. Eu sou um escritor! Ela não existe… Quer dizer, não de verdade! Vem cá… – tentando abraçá-la.

– Conta outra, Reginaldo! – afastando-o com um empurrão – Onde vocês se encontravam, hein? Diz… Naquele tal “hotel barato, com um quadro torto na parede e um vaso com flores falsas sobre a mesa”?

– Querida, esse hotel não existe! Eu inventei!

– Sei… Então quer dizer que é tudo fruto da sua imaginação, inclusive o tal espelho sobre a pia do banheiro, “que permitia, pelo seu reflexo, espiá-la da cama, tomando banho no box”? O tal banho que a vagabunda tomava “ensaboando-se de olhos fechados e na ponta dos pés, cantarolando La vie em rose”?!

– Querida, isso é ridículo! Eu sou um escritor… Eu invento histórias, personagens, cenas…

– Cena é o que eu vou fazer se não me contar quem é ela! E depois, você diz que é ridículo? Ridículo é essa sua quedinha por morenas…

– Ué? Faria diferença se ela fosse ruiva ou loira? Se quiser, no próximo conto, digo que o cabelo dela é pintado, que na verdade é tudo tintura…

– Não me provoque, Reginaldo! Você não sabe do que uma mulher traída é capaz!

– Traída? Mas querida, é ficção!

– Não me chame de querida! Pelo visto, agora a sua “queridinha” é essa safada…

– Ela não é safada! É uma mulher séria, mas em crise… É uma personagem complexa…

– Sei… Entendi! – concordou com um sorriso irônico – Uma mulher casada, da sociedade, se encontrando com seu amante num quartinho de hotel… E você ainda diz que ela é uma mulher séria?! Bom que eu saiba…

– Olhaaaaaa… Não confunde as coisas! É só um conto! Um CONTO, Maria Eugênia!

– Ah… Um conto, Reginaldo?! Sabe então o que eu vou fazer?

– Não meu bem, nem desconfio…

– Pois é… Nem te “conto”, Reginaldo… Nem te “CONTO”!

– Não mistura alhos com bugalhos, Maria Eugênia!

– Eu? Misturando? A sua “amiguinha” é que andou misturando… O que era mesmo? Campari com gelo e água tônica?! Ah, sim… e um raminho de hortelã! Desde quando você gosta de Campari?

– Eu odeio Campari, querida! Eu só achei que combinaria com ela…

– Sei… combinaria, é?! Uma “bebida delicada para uma mulher delicada!” Foi isso que você escreveu, não foi? Como era mesmo? “seios pequenos, alvos, puros… eram simétricos e lembravam duas taças… na forma e na delicadeza… eram como cálices de cristal!” – a Maria Eugênia começou a chorar novamente – Eu queria ver ela manter esses seios depois de três filhos!

– Seus seios também são lindos, querida!

– Também? Não ouse me comparar a ela! – escondendo seus peitos com uma almofada do sofá – E o perfume dela?! “Seu corpo cheirava a flores do campo… Alfazema…” Arg! Desde quando você entende de perfume de mulher, Reginaldo? Que novidade é essa? Nunca deu bola pra isso! Você já nasceu com o nariz entupido! Agora, de repente, virou um expert em aromas?

– Eu fiz uma pesquisa, querida. Para o livro…

– Pesquisa de campo, é? Quantos pescoços você fungou? Não, melhor me poupar dos detalhes, Reginaldo!

– Não… Claro que não! Que isso… Poxa, o que você quer que eu faça, Maria Eugênia? Quer que eu pare de escrever?

– Acabe tudo com ela! Isso… coloque um ponto final! E agora!

– Mas eu não tenho nada com ela… Quer dizer… Ela nem existe!

A Maria Eugênia parou, pensou, e disse baixinho, confessando seu ciúme:

– Existe na sua imaginação! Você nunca repetiu uma personagem… E agora “essazinha” aí já está no terceiro conto!

– Mas, querida… A personagem deu certo! Ela está fazendo o maior sucesso! É a minha carreira de escritor que está em jogo!

– Reginaldo… Você que escolhe: Ou ela ou eu!!!

– Mas, Maria Eugênia…

– Escolhe, Reginaldo! Escolhe…

* * *

Uma semana depois…

– Maria Eugênia… o que foi agora? O que você está fazendo?

– As malas, Reginaldo. Estou fazendo minhas malas! Estou indo para a casa da mamãe! – e virou de costas para que não visse que tinha chorado às escondidas.

– Mas, querida… Você não leu? Foi publicado ontem… Acabou! Eu matei a Shirley! Ouviu bem? Eu a matei! Ela se enforcou com a mangueirinha do chuveiro no final do conto… Morreu pendurada no boxe do banheiro! Foi encontrada morta… Toda ensaboada!

– É… Morreu! Mas só no final do conto… Morreu depois de ainda ter feito amor mais três vezes… Precisava? Hein? Precisava?

* * * * *

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